segunda-feira, outubro 16, 2006

VUP- 5 - Gonçalo Ribeiro Telles

Gonçalo Ribeiro Telles Professor catedrático da Universidade de Évora, ex-ministro de Estado e da Qualidade de Vida, fundador do Movimento Partido da Terra, arquitecto paisagista.

o que diz..
"A grande causa é um mau ordenamento do território, ou seja, a florestação extensiva com pinheiros e eucaliptos, de madeira para as celuloses e para a construção civil".

"É muito bom para as celuloses e muito mau para as populações e para o País, que está devastado. O mundo rural foi considerado obsoleto, como qualquer coisa que vai desaparecer. Veja-se o disparate que foi a política de diminuição dos activos na agricultura. Contribuiu para o aumento dos subúrbios, dos bairros de lata, da emigração. Trouxe alguma coisa melhor para a província? Não. Apenas um grande negócio para as celuloses e para os madeireiros".

"Houve toda uma política de desprestígio do mundo rural tendo por base a ideia de que era inferior ao mundo urbano. Despovoámos os campos e essa gente toda veio para a cidade. Hoje, enfrenta o desemprego. Esqueceram-se que o homem do futuro vai ser cada vez mais o homem das duas culturas, da urbana e da rural".

"Os presidentes das câmaras gastam milhares de contos em parques. Entusiasmam-se com catálogos, muitas vezes desenhados por curiosos e até por irresponsáveis. Agora é a moda das palmeiras e dos repuxos, com água a subir e a descer. É o chamado repuxismo!".

"Por que é que estão a despejar as escolas? Não há crianças. É um círculo vicioso. É provocado pelo modelo económico, que não é um modelo de desenvolvimento. Quando se fecha uma escola, a região é mandada para o “galheiro”. Não tem gente, porque puseram lá uma monocultura. A população não fica lá “a ver crescer o pau” que ainda por cima não é deles".

"O parque da Gulbenkian é um jardim para ser pisado, onde se pode olhar para o chão e contar sapos, ver pássaros. É um jardim de cenários que se sucedem, com luz e sombras, que se vê passeando, zonado e compartimentado. Enfim, bom para namorar".

"A paisagem quer dizer país, região + agem, agir, ou seja, agir sobre a região. Quem age sobre a região, é o Homem. A paisagem é uma construção humana, feita, fundamentalmente, com materiais vivos. Há cerca de 50 anos, o que era contínuo na paisagem era o sistema natural. Tudo isto era uma paisagem, onde o sistema natural dominava, e era contínuo. As cidades eram pontos nessa continuidade de espaço natural, agrícola, florestal, de pastagens ou abandonado. Hoje, é exactamente o contrário, o contínuo na paisagem é o construído, e o pontual, é o que resta de agricultura, de espaço livre, que passou a ser descontínuo".

2 Comentários:

Blogger Jardineira aprendiz disse...

O prof Ribeiro Telles é uma pessoa admirável, que merece inteiramente o título de VUP!

Mas se me permites vou discordar de uma frase que colocaste - aqui no norte o pau que cresce é das populações que têm muita responsabilidade na degradação da paisagem. As celuloses aproveitam a situação, mas a população não é inocente. A 'urbanização' das culturas rurais tem sido alegremente adoptada nesta região desde que me lembro pela população rural, sendo a paisagem vista apenas como uma fonte de rendimento económico. Esquecemos em uma ou duas gerações tudo o que os nossos antepassados aprenderam (?) sobre a terra.
Ou seja, isto é um processo que não vem apenas de cima, dos governantes e dos agentes económicos. Vem também de dentro e faz parte de uma evolução de mentalidades que deve ser mudada a partir de dentro. O 'como' é que não sei, alguma coisa se vai fazendo, embora pareça sempre pouco para o ritmo de degradação que está a acontecer.

10:15 da manhã  
Blogger Pirate disse...

Pena é que não existam mais vozes como a de GRT que atirem umas "pedradas" à consciência do poder político que elabora, executa, fiscaliza os PDMs acabando por fazer deles letra morta...
O estado do ordenamento territorial de um país é um dos espelhos do seu grau de desenvolvimento...e quanto a isso estamos muito mal servidos !
O desordenamento que continua a prevalecer é um autêntico crime de leza pátria...os múltiplos exemplos de conspurcação de paisagens e malhas urbanas falam por si...uma autêntica barbaridade, a começar com a nossa orla costeira que poderia ter sido um verdadeiro "benchmarking" e acabou por ser um triste exemplo daquilo que se não deve fazer: em suma um manual de péssimas práticas de gestão urbana e paisagística.
Hajam mais vozes assim: o exemplo de GRT merece ser replicado.
Obrigado pela visita.
"mi casa es tu casa" :-)

5:03 da tarde  

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